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Amaci. Banho de folhas!

Atualizado: 5 de set. de 2020


Os Òrìṣàs são chamados de "encantados": porque não morrem, eles se encantam! Lindo isso, não é? Mas... exatamente o que isso quer dizer? Ora.... para entender é preciso conhecer suas histórias e estórias, além das lendas para que se aprenda onde e como e porquê se encantaram.


Existem diversas lendas pra cada encantado, diversos nomes, e, assim, diferentes cultos pra cada um deles. Há encantados que não são cultuados no Brasil, mas são cultuados em continente africano, como por exemplo, o Òrìṣà da chuva, o Òrìṣà da estrela guia... estudiosos afirmam que existem mais de 401 (número que dá alusão para eles de algo infinito) divindades espalhadas no continente africano, entretanto, poucos chegaram e permaneceram aqui. É importante lembrar que cada Òrìṣà foi trazido para o Brasil pela nação onde era cultuado na África, e o Brasil não recebeu africanos de todos as localidades.


Quando o Òrìṣà chegou ao Brasil, na diáspora, teve seu culto reinventado bem como suas vestimentas, e alguns conceitos modificados. Pode-se afirmar, até, Eles são mais "endeusados" do que na própria África, sua origem. Lá, são, em sua maioria, ancestrais divinizados, alguns por seus feitos históricos, outros por sua trajetória de vida e merecimento. Bem "parecido" com a santificação e canonização católica de seus santos. Porém não há no culto do Òrìṣà um papa, um sacerdote supremo que organiza o culto.


Então, assim como no folclore e cultura de cada povo, uma lenda pode ser contada de diferentes formas. O que não tem como alterar é uma regra máxima: kosi ewe, kosi Òrìṣà!, que quer dizer, literalmente, sem folha, sem Òrìṣà! Eles são encantados na natureza! E o Amací, como chamamos na umbanda, ou banho de Santo, como chamamos no Candomblé, nada mais é que o banho dessas folhas. Diversos banhos existem, pra variados fundamentos.


O mestre das folhas, é Osanyin, que com ajuda de seu servo Aronì, promove o culto dos encantados, dando a cada Òrìṣà suas folhas específicas pra resultados esperados e determinados. Osoòsí é o senhor que cuida da mata, Osanyin também, porém outros Òrìṣàs lá habitam, no Igbo (floresta/mata). Ogun por exemplo é também ofertado nas matas, por ser Olodé (chefe dos caçadores).


Na umbanda não se cultua Osanyin, o dono de todas as folhas, esse cargo fica sendo de Osoosi, porém uma vez que se aprender a origem do culto aos Òrìṣàs, creio que devemos fazer a inserção de tal mestre da medicina mágica (oloogun) no culto da umbanda.

Osanyin é quem irá nos dar a folha e ativar seus poderem mediante Orikis (evocações), Aduras (rezas) e Orins (cantigas) próprias da "sassanha" (assa osanyin - nome ritual de preparação dos amacís). Porém no candomblé a "sassanha" é tida como complexa, cheia de mistérios etc. Onde na sua realidade é apenas, segundo a África, o culto a Osanyin, e o preparo das folhas, onde são entoadas cantigas para o mesmo no preparo do banho, sem ter complexidade, a não ser o conhecimento sobre o Òrìṣà e as variadas folhas.


O Amací, na umbanda, promove a ligação com sua espiritualidade, e dá início ao desenvolvimento mediúnico. Eu ,assim como muitos outros, fundamentamos a quartinha do médium nesse ritual, para que junto dele seja sacralizado um objeto que o represente no culto. Dentro dessa quartinha, há elementos: por ser portador da fonte da vida, a água é fundamental estar sempre completa, e um okuta (pedra) simbolizando sempre seu próprio corpo, orì, etc.


Na umbanda que eu toco, essa quartinha e esse rito de amaci é a entrada na casa e culto, e o vínculo principal do médium com o terreiro, sacerdotes, caboclos dos Òrìṣàs e entidades. Após a consulta a ifá, no jogo de búzios, onde se é confirmado o Òrìṣà Olorì (dono da cabeça - Òrìṣà que rege aquele praticante da religião) e demais que o acompanham, é então marcado o dia do amací, o qual vem a ser realizado, após rituais também orientados por oráculos. Esses banhos são de limpeza e apaziguamento de Esú (Òrìṣà fiscalizador de ritual e organizador).


A umbanda em seu início (bem sei por estudo) não se utilizava destas questões, porém tudo evolui e cada cabeça uma sentença. Não há como dizermos que tocamos umbanda aqui, e muitos terreiros também não tem como dizer isso, pois hoje há enorme derivação do conceito e fundamento umbanda, assim como candomblé e o próprio culto ao Òrìṣà em sua raiz África.


Concluindo com meus estudos formulo a seguinte teoria: mesmo em sua origem ritualística, cada encantado é tido como um ancestral divinizado por algo, em cada tribo isso altera, e cada povo, mesmo cultuando o mesmo encantado, tem seu próprio culto. Assim devemos respeitar a diferença cultural, senão seriamos arrogantes querendo ser os donos de uma verdade absoluta que muito provavelmente não exista.


Nenhum banho de folhas, em qualquer religião e doutrina, terá efeito abençoado se a pessoa não tiver uma boa conduta na vida. É preciso, além de entender sobre a arte mágica medicinal e a função de cada folha, que as atitudes do ser humano determinam o que o mesmo colherá.


A folha, a natureza, auxiliam o ser humano a se modificar para a melhor, porem é o Orì que o mesmo tem que determina quais atitudes tomará nas mais variadas situações que a vida apresenta. A folha não muda o caráter de ninguém, ela ajuda o devoto, o ser humano, a buscar uma consciência melhor e assim se modificar, acompanhado de filosofia e da ligação com o sagrado.


Para realizarmos um banho de folhas, o que parece simples, devemos aprender antes sobre os Òrìṣàs e cada passo desse ritual. Para que o encantamento aconteça e para que o verdadeiro àṣẹ seja extraído de maneira correta da natureza.


Existe uma cantiga que ensina a base desta simbologia que diz, na tradução: “quem precisa da arte de Osanyin que caminhe até ele!” Neste caminho temos que dar conta dos protocolos e culto que envolvem Esù Òrìṣà, Osun (pelo uso da água nos banhos), Ogun, Osòosí, dentre outros. Não basta colher a folha, sair andando, por em uma panela, e tomar junto ao seu sabonete de marca.


Banho de Òrìṣà se toma com água fresca para não esquentar o Orì. Banho de folhas se toma com elas encantadas e com tudo devidamente ofertado e verbalizado com o ofó (encantamento com a boca). Ervas prontas para serem postas juntas que vendem por ai, não são encantadas, e são misturadas a outras.

Ninguém dá calmante para uma pessoa muito calma. Ninguém da energético para uma pessoa muito agitada. Com as folhas e os banhos dos Òrìṣàs é a mesma coisa. O diagnostico tem que vir de forma correta por quem entende do assunto.


O dábọ̀ àti mo dúpẹ́ ẹ!

(Até logo e agradeço!)

Por Babá Jonathan T´Osun


Edição: Cristiane A.O.M. Camps (Cristiane T´Logunede)

Aṣè

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