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A questão do dízimo e mensalidade nas Religiões

Atualizado: 17 de fev.


Existe, de fato, diversas confusões sobre esse tema, as quais são, realmente, das mais perigosas. Geram guerra em lares, locais santos e o pior, no interior do ser humano: como um vírus que se espalha e corrompe não só o corpo, mas a alma. O câncer da ganância, cujo se aloja na exploração da fé, especialmente dos mais desesperados e desencontrados crentes.


Não estou aqui para acusar um ou outro, mas sim para tentar esclarecer sobre os pagamentos de consultas oraculares, dízimos e trabalhos espirituais. A questão do dinheiro na religião não é nenhuma novidade: existem regras divinas que os sacerdotes de todas as religiões devem seguir e eles sabem quais são.


"Ah... mas e a caridade?": para poder praticá-la, temos de entender que o sacerdote e a congregação a qual ele ministra necessita montantes para exercê-la. Quando o antro religioso não for um centro de recolhimento de doações, demandará sim de dinheiro para a pratica de caridade. Afinal, nenhum ser humano é capaz de fabricar um alimento ou uma roupa apenas com a força do pensamento. Simples assim.


Dízimo seria a décima parte de seus lucros, entregues como gratidão a obra de Deus na Terra, para que a caridade aconteça para os necessitados. Se o local for um centro de doações, acredite, não precisa pensar muito, as pessoas que estão doando, também estão gastando. É preciso comprar antes de doar. Ninguém doa o que não tem. A não ser tempo, amor, carinho e sentimentos bons. Isso é de graça. Só não caia na ignorância de achar que com apenas amor as pessoas irão pagar suas contas de luz, água e fazer compras de comida e demais itens de subsistência. Infelizmente essa “moeda” não existe neste mundo.


Não precisamos de um templo religioso de paredes e afins, isso com certeza é uma verdade. Cristo pregava por onde passava e levava uma legião de seguidores. O mesmo ganhou ouro, incenso e mirra. Não podemos esquecer disso também!


Nas doutrinas que sigo e sou sacerdote uma coisa sempre se fez clara, dinheiro de trabalhos espirituais, quando devem ser cobrados por alguma razão, não me pertence. Simples assim. Esse dinheiro serve para a caridade ser feita por mim, pois esse dinheiro veio por esse intuito através da espiritualidade.


O oríkì de Èù Òrìṣà ensina: A kìì lówó láì mú ti Èù kúrò (quem tem dinheiro reserva pra Èù a sua parte).

Neste breve verso desta invocação, este Òrìṣà da ordem, organização, disciplina e inimigo do mal caráter ensina que dinheiro de oferendas são usados para este fim, reservar a parte de Èù e com este dinheiro, promover o bem na vida daquele que necessita.


Os(as) sacerdotes/sacerdotisas de várias doutrinas insistem em enriquecerem com o problema alheio e não se atentam a tais regras. E costumeiro notar que, enquanto o sacerdote/sacerdotisa anda de carro importado, o fiel que paga dízimo, oferendas, obrigações (ou qualquer outra questão para manter a base da troca e a caridade a todo vapor para quem realmente precisa), anda de ônibus, quando assim não pede emprestado pois nem para isso tem.


Já auxiliei dezenas de vezes às pessoas, a maioria que se quer tinham a ver com a minha linha espiritual, posto que sejam quem for e no que acreditam, suas necessidades eram reais, e estava a meu alcance exercer a caridade, em atos simples como fazer suas compras de mercado, pagar conta de luz. Afinal essa forma de gratidão me enche de alegria, pois eu também sou auxiliado por esse àṣẹ de troca.


Fico satisfeito de poder auxiliar, pois quando iniciei minha jornada sacerdotal, eu já cheguei a comer de oferenda dispostas na praia para Yemja. Já cheguei a dormir no chão da casa dos outros e aprendi a rir e ser feliz sem dinheiro no bolso. Afinal, o ter ou não ter capital financeiro não define quem você é. Não resume o que está dentro de seu coração.


O poder, quando oferecido ao ser humano, pode revelar grandes usurpadores para não dizer criminosos. Falsos profetas. Deve-se sempre observar a humildade de caráter do sacerdote!. Quando falamos de consultas oraculares em nossa doutrina de matriz africana, estamos falando do sustento de um trabalho, assim como o dos médicos, e de qualquer outra profissão. Estamos trocando o que temos por aquilo que necessitamos. E mesmo assim não devemos nos esquecer de continuar atendendo aos necessitados. Afinal muitas consultas minhas foram pagam apenas com uma moeda ou até mesmo com pedras colhidas na rua, acreditem. E eu aceitei. Aceitei de bom grado, mesmo que em alguns casos fizeram de provocação para não dizer outra palavra feia. E é ai que entra a frase: “Prestaremos contas a Deus!” Tanto quem cobra, como cobra, e para que cobra, quanto quem paga, quanto paga e o porquê paga. Porém, nunca para quem. Afinal, quem recebe é cobrado de ter senso e honestidade.

Um proverbio de ifá diz: “não se ouve o barulho dos búzios cair no tabuleiro de ifá, sem antes o Bàbáláwo ouvir o barulho das moedas.”

É um trabalho de auto ajuda, uma ferramenta de muito sustento, usado por milhões de anos. Algo cultural e necessário. O que define certo de errado é exatamente a ganância daquele que cobra e recebe. Tenha consciência que você de fato precisa honrar com seus pagamentos ou doações, e deixe que aquele que recebe será cobrado com o que fez com o dinheiro.

Espero que meus colegas sacerdotes, os que vivem para este lindo trabalho espiritual sejam honestos com o próximo e cumpram a parte de reservar ao ser humano, porque o inspetor do Deus Supremo, Òrìṣà Èù, determina, a parte de cada um para conseguirem viver uma vida digna. Possa o Deus Supremo continuar a dar condições aos meus àwọn Òrìṣà de me oferecerem sustento e bom coração para compartilhar a quem não tem o muito, ou o pouco que possuo, sem desviar minha alma pro mar de ambição e obscurantismo.

O dábọ̀ àti mo dúpẹ́ ẹ!

(Até logo e agradeço!)

Por Bàbá Jonathan T´Ọ̀ṣun

Edição: Cristiane A.O.M. Camps

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